Produção cultural na cidade deu um salto nos últimos anos
Há
exatamente um mês, uma trupe de artistas desfilava pelas ruas de
Canelinha, chamando a atenção das pessoas que trabalhavam nas
lojas, atraindo olhares curiosos de senhores que pedalavam
tranquilamente suas bicicletas e de quem mais assistisse àquela cena
incomum na rotina pacata da cidade. Malabaristas, palhaços, músicos,
piratas em monociclos, duendes e figuras se equilibrando em pernas de
pau formavam o cortejo que dava início ao Circo na Rua, evento
voltado às artes circenses.
Nem bem a poeira baixou e, neste fim de abril, uma nova programação cultural já movimenta a cidade: o Abril dos Bonecos comemora os 30 anos do teatro lambe-lambe – em que espetáculos em miniatura acontecem dentro de caixas, com os personagens sendo manipulados pelos caixeiros – e ao Dia Nacional do Teatro de Bonecos, celebrado em 27 de abril.
Talvez seja um exagero dizer que a coleção de clássicos que Thiago Furtado ganhou quando criança tenha definido o seu presente, mas é dos livros da infância que ele lembra quando perguntam da sua inclinação pelas letras. Thiago acaba de se matricular no curso de jornalismo da Univali, e o que fará disso ainda pertence ao futuro. No momento, ele escreve poesias.
A veia poética não é uma descoberta recente. Não para ele. Talvez para os amigos, pois apenas em outubro de 2013 Thiago começou a publicar as poesias num Tumblr (espécie de blogue). A primeira saiu num sábado. À noite, havia uma festa de aniversário e um dos convidados elogiou a postagem. “Fiquei me sentindo um escritor”, lembra o auxiliar de topógrafo de 25 anos natural de Tijucas, espantado com o rápido feedback. Agora, Thiago é frequentador das feiras e exposições de arte da região, onde é visto exibindo as suas “Poesias no Varal”.
Thiago e suas poesias no varal (foto por Isadora Manerich)
“O processo de botar [as poesias] na rua foi demorado”, reconhece. Conversei com Thiago num fim de tarde de sexta (12) do último mês de 2014, no Du Cais. Porto Belo é seu destino de quase todo fim de semana: a família tem uma casa no bairro do Perequê, por isso Thiago e a namorada, a fotógrafa Isadora Manerich, estão sempre por aqui.
POEMAS NO VARAL
Mas ele ia dizendo que rabiscou seus primeiros versos no final do ensino fundamental. Na verdade, fragmentos de ideias e tentativas de composição musical, que desviavam sua atenção das disciplinas mais enfadonhas e preenchiam as páginas do final dos cadernos — o “porão”, como ele as chama, e foi daí que tirou o nome da sua página.
Após isso, Thiago “se convidou” para expor algumas poesias no Espaço Bonequiando, no centro de Porto Belo, no último mês de junho. Esticou um varal e pendurou oito poemas datilografados numa Remington 22. “Pensei no lance do cordel e a Isa deu a ideia da máquina”. E o casal gostou tanto da experiência que a repetiu umas dez vezes nos últimos meses. Do porão para o varal. De escritor anônimo a artista expositor.
“A iniciativa é mais importante que a qualidade dos poemas”, acredita Thiago, que no entanto vê valor no seu trabalho. Não fosse isso, certamente jamais o haveria libertado do fundo dos cadernos. O fato é que, ao expor (e se expor), o tijuquense amplia seu círculo, conhece pessoas novas, expediente que valoriza bastante. “Não tem muita gente que para pra ler, mas quando tem algum feedback é muito massa”, destaca.
Seu processo de produção nada tem de sofisticado. O jovem escritor, que antes de prestar vestibular para jornalismo havia cursado direito, engenharia de aquicultura e se formado em gestão ambiental, sem achar muito uso para uma coisa nem outra, lê quase nada de poesia. Também não pensa muito em estrutura, métrica, apenas observa a rima. Pega sua inspiração de frases soltas, sentimentos, e com esses fiapos — muitas vezes gravados em mensagens de voz no celular para não esquecer — dá início à sua feitura poética. “Não tenho isso muito claro. Não sei classificar nada do que eu faço”, diz.
Certo é que aquela coleção de clássicos da literatura infanto-juvenil está no começo dessa jornada. Do gosto pela leitura, estimulado por dona Ieda, orientadora educacional que tratou de incutir no filho essa característica preciosa desde cedo, que redundou no gosto pela escrita. Thiago foi alfabetizado ainda antes de pisar na escola. Só não pôde corresponder à mãe no seu desejo de torná-lo advogado. Tudo bem, pois Thiago fez bom uso das lições.
No futuro um livro, quem sabe… A ideia o assombra: “[A obra] fica mais no mundo material”. E também planos ao lado da namorada, com versos e fotos dividindo espaço, um documentário audiovisual sobre a banda da qual são fãs (Uniclãs) e tantos outros projetos. “Não tenho compromisso com nada”, explica sua falta de pressa em emplacar as ideias. Mas tenha uma certeza: se você for a alguma tertúlia cultural na região, vai encontra o Thiago por ali. E com ele, as poesias no varal.
Natural de Porto Belo (SC), Alcides Mafra começou sua trajetória no jornalismo em 1990, trabalhando como chargista e diagramador para jornais do litoral norte de Santa Catarina e Vale do Rio Tijucas. Em 1996, ajudou a fundar o jornal Pirão d’água, em Porto Belo, o qual editou durante cinco anos. Foi repórter das revistas Photos & Imagens e Photo Magazine e diretor de conteúdo do site iPhoto Channel. Trabalhou ainda como revisor e coordenador editorial da editora iPhoto. Formado em Jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), é autor do livro Contam os Antigos… História e lendas de Bombinhas (editora Univali, 2006) e um dos autores do projeto de documentário audiovisual Retratos de Porto Belo, contemplado pelo edital de cultura do município de Porto Belo em 2016 e homenageado com Moção de Parabenização pela Câmara Municipal de Porto Belo em 2017.